A Tipografia do Papeleiro Doido, neste caso o João Sebastian, vai expor alguns trabalhos que são sobretudo edições únicas, livros fora de formato feitos com materiais reutilizados do dia a dia e textos recentes e antigos.
A inauguração aconteceu no sábado dia 19 de setembro às 16h.
Esta exposição está patente na galeria da livraria Tinta nos Nervos em Lisboa de 19 de setembro até 17 de outubro.
O JOÃO É O MEU MESTRE – Bruno Selva
Estas peças de Sebastian valorizam a relação entre a experiência sensorial e a leitura, o gesto e a autoria, a materialidade e o pensamento. São bons exemplos pois, estimulam a reflexão sobre a relação entre o livro, o leitor e as tecnologias que moldam a sua forma, produção e experiência. Promovem a reflexão sobre a relação entre as tecnologias de impressão ou produção e o objeto, entre o processo criativo, o resultado do objeto livro e a sua leitura. Isto é, onde o design e produção da página sensorial impressa, ou caligrafada, sublinham a importância do contacto e da relação física e emocional, quer do autor, quer do leitor, no decorrer dessa interação com o objeto impresso e de configurações híbridas.
Não interessa muito saber em que prateleira do supermercado, das artes ou dos designs, se devem ou podem colocar as “coisas” que Sebastian tem vindo a fazer, escrever e produzir. Os objetos são compostos de excessos, desperdícios e restos da sociedade de consumo. E, depois de transformados e intervencionados, transportam temas que evocam carências e lacunas no departamento afetivo e emocional da humanidade. O amor, a guerra, o sexo, (a prostituição em particular) e o humor, são personagens recorrentes.
Algumas destas peças assemelham-se mais a livros, alguns deles minúsculos, mas minuciosamente encadernados com capa dura, como se de enciclopédias se tratassem. Talvez daqui a uns tempos, quando o que resta de nós desaparecer, assim sejam considerados. Devido aos ensinamentos especializados que aí se encontram.
UMA EXPLICAÇÃO – João Sebastian
Um escritor falhado não deixa de ser um escritor. É um escritor, falhado. O que não se pode é dizer que não tentou, falhou, mas tentou. Pode ainda dizer-se que em primeiro lugar tentou e só depois é que falhou, ou seja, não falhou ao tentar o que é digno, tentou.
O pobre diabo tinha algo a dizer, o que convém a um escritor, mas não era dado a flores nem a floreados, não era mesmo, mas disse e ficou dito, ou seja, escreveu.
(…)
São livros feitos a partir de objetos do dia a dia, desperdícios modernaços sem outro fim que não a reciclagem. Mas são também objetos que nos são familiares e com os quais lidamos no quotidiano, talvez isso ajude e não são repugnantes por isso mesmo. Usei o mínimo possível de recursos, é verdade, não deixei foi que ficassem por fazer. E não tentei dissimular os materiais que uso, são como são. Não são ricos nem pobres, porque eu não acredito nisso, são os que são e são como são.
Já as histórias não são assim tão fáceis de resolver. Na verdade, não contam histórias, constatam realidades de uma forma mais ou menos crua e cruel, coisa que estamos pouco habituados, porque o quotidiano… o quotidiano a que nos habituamos, confortável e seguro é também enganador.
Mas também não me custa nada assumir que não são livros e que são outra coisa qualquer que não sei nomear, bolas, são o que me apetece fazer e pronto. Até porque isso de conceito alargado de livro, eu sei lá o que quer dizer? Diga-me quem entende dessas coisas ou não me diga nada porque estou um bocado farto de pedir opiniões e isso nunca me fez chegar a lado nenhum. As pessoas gostam de comprar coisas, adoram mesmo comprar coisas e falo das pessoas, mas quero dizer todas as pessoas, ou seja, a humanidade adora comprar coisas e essa foi a minha fonte inspiradora, colocar os meus trabalhos, aquilo que faço, disfarçado dentro de embalagens com as quais as pessoas estão familiarizadas e que pelos vistos lhe são muito agradáveis e talvez fazê-las sentir algum ridículo, embora na verdade seja provavelmente eu quem vai cair no ridículo, sei lá.
(…)
Se eu fosse culto, intelectual ou tão só um tipo formado poderia dar uma opinião fundamentada sobre estes assuntos, não sou e, portanto, resta-me uma abordagem “artística”, ou seja, sei o que sinto, mas tenho dificuldade em escrevê-lo e o que sinto talvez faça sentido e seja percetível por outros que observem os meus trabalhos. Se assim não for, nada disto fará sentido.